Escolhendo a escola do seu filho: sofismas, ENEM, e as lições queensinamos...

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Escolher a escola de um filho é uma das grandes angústias da maternidade. Ao procurar a melhor forma de fazer essa escolha, são tantos os fatores listados em nossa mente, aleatoriamente organizados... Vamos aos poucos dando diferentes pesos a cada um deles, estabelecendo as prioridades, estudando cada um dos diferentes métodos de ensino para tentar, com muito custo, achar um lugar hábil a nos ajudar na difícil tarefa de transformar os nossos filhos em pessoas melhores

Imagino que a maioria dos leitores, ao ler o título do texto, se perguntou qual seria a relação dos sofismas com essa difícil escolha. Ou talvez tenham se questionado porque eu citei o ENEM, algo ainda tão distante da realidade dos nossos pequenos. Afinal, se trataria de uma preocupação para os pais de crianças ainda na educação infantil, ocupadas com tinta guache e giz de cera?

Pois bem.

Os Sofistas, na Grécia Antiga, eram filósofos itinerantes, que viajavam oferecendo seus conhecimentos a alunos mediante paga. Ensinavam como manejar com habilidade o discurso e a argumentação, de modo a defender com igual sucesso diferentes pontos de vista. Para muitos deles, a plena realização humana dependia menos da ética, da justiça e do respeito ao outro, e mais da valorização do eu e da sua vontade. Acreditavam ser necessário dominar os outros homens para obter pleno acesso aos bens terrenos disponíveis. Inspirado no discurso flexível dos sofistas, a palavra Sofisma define o jogo de argumentação onde proposições verdadeiras são sobrepostas de modo a parecerem ser causa do resultado que se quer obter, mas não há verdadeira correlação lógica entre eles. É o discurso usado de modo capcioso, voltado apenas para convencer o outro, sem a intenção real de se aproximar da verdade. 

 Chegamos ao ENEM.

A finalidade declarada do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é avaliar os conhecimentos obtidos pelo seu filhos durante a vida escolar até o fim do Ensino Médio. Além disso, a nota obtida na prova serve, ao aluno, como parte do processo seletivo para muitas Instituições de Ensino Superior, públicas e privadas, bem como na seleção para bolsas de estudo. Recentemente, o governo manifestou a intenção de utilizar os dados obtidos no exame também como "termômetro" da situação atual das escolas do país.

Por fim, a lição distorcida ensinada aos nossos filhos...

Hoje quase toda divulgação feita sobre os dados obtidos pelo ENEM envolve "Sofismas". As escolas alardeiam amplamente serem "segundo, terceiro, primeiro" lugar no exame, em seu bairro, cidade, estado, no país. Se apresentam, com tal discurso, como a melhor opção para o ingresso do seu filho na universidade. E todos nós estamos comprando esses sofismas a altos custos.

Porque sofismas?

Porque há muito as escolas aprenderam a maquiar esses dados a seu favor. Essa prática, conhecida como "fraude legal", envolve "abrir" outro CNPJ, muitas vezes no mesmo endereço, dando à essa "escola fictícia" um nome semelhante ao nome comercial utilizado pela instituição. Em um desses cadastros está matriculada "a elite": os alunos com melhor desempenho em simulados e afins. No outro (ou nos demais, já que algumas escolas dividem-se em até treze diferentes cadastros) inscreve-se os alunos com pior desempenho nas questões.

A "fraude legal" não para aí. No afã de permanecer no topo do ranking, escolas "presenteiam" os alunos que obtiveram notas altas em simulados públicos, matriculados em outras escolas, com bolsas escolares, inclusive integrais, buscando agregar aos seus quadros a "elite alheia". Apesar da "capa de liberalidade" que a prática veste, a intenção do argumento (alguém duvida?) é clara: sofisma. O aluno é capaz, obteve a nota, e estudava, ao prestar o exame, na instituição informada. Dessas premissas verdadeiras, todavia, não decorre a conclusão lógica que querem fazer você crer: eles não são os primeiros na formação escolar do seu filho.

Tem mais. O que é educar bem? Não entrarei (ainda) em questões morais... Falo mesmo da armazenagem de conhecimento. Uma prova não é o termômetro ideal. Um vestibular nada diz. Conheço indivíduos que passaram em muitos vestibulares e não saíram do mesmo ponto; conheço outros que sofreram por anos para ingressar na universidade, mas finalmente se graduaram e são hoje excelentes profissionais.

Além do mais, aonde se encaixará, dentro desse sistema apertado, rígido e cruel, as múltiplas habilidades do ser humano das quais seu filho pode ser amplamente dotado - e que podem ser reprimidas, desnecessariamente afetadas por um modo engessado de enxergar a formação escolar? Lembro de muitas histórias do meu tempo de "colegial" (como chamávamos o Ensino Médio): de colegas com grande sensibilidade musical sem boas notas em disciplinas regulares, bem como de outros alunos que, mesmo com excelente desempenho nos testes, abdicaram às "super-universidades" para estudar em lugares aonde se sentiam mais confortáveis. São, hoje, excelentes em seus campos de atuação. E, acredito, seres humanos felizes.

Segundo o Dicionário Aurélio, educação é um "conjunto de normas pedagógicas tendentes ao desenvolvimento geral do corpo e do espírito". Ao escolhermos uma instituição que nos auxilie (porque também é função nossa, enquanto pais, dar aos filhos grande parte da educação de que necessitam), devemos analisar não somente a capacidade da escola de fornecer a eles conhecimento suficiente para ingressar na universidade e tornarem-se profissionais bem-sucedidos. Devemos avaliar a habilidade da instituição em desenvolver as potencialidades dos nossos filhos, em respeitar as suas individualidades e limitações.

Muitos pais com filhos matriculados nessas escolas "desmembradas" em diferentes cadastros saíram em sua defesa quando as notícias sobre as "fraudes legais" foram a público. Não os julgo, aqui. Creio que a maioria desses pais fez uma escolha consciente, e que realmente acredita que a melhor educação está sendo entregue aos seus filhos.

Mas já que iniciamos esse texto falando de raciocínios lógicos e dos Sofistas, convido todos os pais a me acompanhar na formulação de algumas premissas: se educar é função também das escolas, e se educar envolve propiciar o desenvolvimento geral do corpo e espírito do indivíduo, que lição ensina a escola que "dá um jeitinho" nas coisas, com o intuito de obter determinada posição em um ranking, ainda que se saiba que esses dados não necessariamente correspondem à realidade? Que lição dá a instituição que classifica seus alunos, declaradamente ou não, em "elites" e "não-elites", que oferece "prêmios" não aos seus alunos bem colocados, mas aos alunos alheios, visando ganhos financeiros? Que lição, por fim, oferecerem os pais aos filhos quando, após escolher demoradamente a escola em que obterão a sua "educação", "barganham" a formação no último ano do Ensino Médio deles por gratuidade nas mensalidades?

Para compreender melhor o que o Paulo Freire quis dizer, vá até a fonte clicando AQUI!


É bom lembrar que a grande maioria das famílias que assim age não precisa verdadeiramente da gratuidade, já que a "permuta" costuma acontecer entre escolas caras...

Do alto da minha capacidade imaginativa, me vejo adolescente lendo a situação da seguinte forma: se meus pais entendem que posso "vender" um ano da minha escola para obter algum lucro, porque não posso "vender", futuramente, os segredos da minha empresa? Desfavorecer um colega para me beneficiar? E daí chegamos no ponto principal, a meu ver, de presenciarmos as nossas escolas praticando essa pequena e inocente fraude pela publicidade e expansão de seus domínios:

Distorcem-se os valores.

As escolas também transmitem valores aos nossos filhos. Quando busquei, no início desse ano, um colégio maior aonde meu filho pudesse permanecer até o Ensino Médio, visualizei o adolescente que queria que ele fosse. Imaginei todas as possibilidades de conflito, todas as dúvidas que permearam a minha mente de ser humano em formação no passado, tudo o que foi feito à época e também o que não foi feito. Pensei no colega que não tinha uma família rica, no colega com dificuldades de aprendizado, no rebelde e na "patricinha". Inseri mentalmente o meu filho nesse tornado de personalidades e procurei visualizar o que gostaria que a escola fizesse por ele nesse universo. A nota do Enem passou pela minha cabeça. Mas não guiou os meus passos.

Escolhi a escola do meu filho garantindo que ele fosse acolhido com afeto. Que ele aprendesse cedo o valor do respeito e da amizade. Que se sentisse seguro e estivesse seguro. Que se tornasse um adolescente cheio de possibilidades, e que todas elas fossem colocadas diante dele com igual importância. Que ele pudesse ser um excelente matemático e ainda assim, cantar. Aonde ouvisse falar de livros e de amor. Um ambiente que valorizasse a caridade e a solidariedade, e que o ensinasse, principalmente, a enfrentar os medos e os anseios sobre o próprio futuro com responsabilidade. São as lições que não aparecem na nota do Enem...

Para os que terminaram esse texto apreensivos, se perguntando como saber se a escola escolhida adota esse tipo de conduta durante o exames, basta baixar a lista completa AQUI. Ela contém todos os dados de cada escola inscrita por estado/cidade, incluindo quantos alunos foram inscritos sob cada CNPJ, o indicador de permanência na escola (indicadores muito baixos costumam significar que se tratam de alunos "inscritos" a pouco tempo naquele CNPJ), o nível sócio-econômico do estabelecimento, dentre outros. Um bom modo de analisar a tabela (que é enorme) é abrir uma nova aba, e nela "colar" apenas a legenda e as escolas da sua cidade.

Para mais informações, recomendo os textos disponíveis AQUI e AQUI, ambos do Mateus Prado.

“Que é mesmo a minha neutralidade senão a maneira cômoda, talvez, mas hipócrita, de esconder minha opção ou meu medo de acusar a injustiça? Lavar as mãos em face da opressão é reforçar o poder do opressor, é optar por ele”. Paulo Freire

Mamãe Inventa

Autora

Sou Helena, mãe de Heitor e Benício, duas criaturinhas mágicas no curso de seu quinto e segundo ano de vida, respectivamente, que fizeram de mim mais humana do que nunca, forte para matar mil feras e amável para cuidar de mil feridos. Sou mãe pelas vinte e quatro horas do meu dia. Desejo, incansavelmente, a paz mundial. Com gargalhadas.

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