Eu não posso fazer nada... SERÁ?

por 18:12 0 comentários


Eu tenho um filho de quase três anos. Ele me acorda com um "mondia", me pede o "mamá" (que já vem no copinho, mas o nome carinhoso persiste), e corre para me mostrar que todos os brinquedos amanheceram no mesmo lugar em que estavam quando anoiteceu. Ele pede desculpas quando não fez absolutamente nada, apenas para ganhar beijo. Ele adora o Buzz "Laitias" e "Masha e o Urso". Ele adora pular em cima do sofá e se esconder (com os pés visíveis) atrás da cortina... Se ninguém percebe, ele mesmo dá a dica dizendo "cadê o Menício?", e treme dando risadinhas enquanto estamos procurando sem sucesso. Ele ainda dorme abraçado a uma manta com cabeça de elefantinho. Ele odeia quando a calça sobe até os joelhos, e odeia quando elas encurtam de repente (o que tem acontecido com uma enorme frequência). Ele adora fazer círculos no papel, ele adora se agarrar com os braços e as pernas às minhas pernas e gritar "peguei a perna!", e vibra quando eu caminho com ele agarrado assim... Ele entra na cozinha e fica pensando no que quer comer, ele conta os gizes de cera até treze, e então conta todos os outros como treze, também... Ele faz birra, ele dorme no carro em trajetos longos, ele insiste em cutucar o nariz, e se esconde atrás da porta para fazê-lo quando eu reclamo. Ele faz tudo o que uma criança de três anos costuma fazer.

Tenho certeza de que a imagem acima chocou inclusive quem não tem uma criança de três anos por perto. Mas provocou arrepios em quem tem ou teve. Porque representa tudo que uma criança de três anos não poderia estar fazendo.

Nessas horas de comoção geral, eu gosto de ler o que dizem os racionais... É duro, mas sou o tipo de pessoa que faz questão de ouvir o outro lado. Então li um pequeno texto sobre como o Estado Islâmico "planta" pessoas na Europa como refugiados, e que a cautela se justificaria. Esse foi o único argumento "avesso" que encontrei. Vou adiante, então.

Uma grande amiga, administradora, cunhou uma EXCELENTE frase da qual me valho quase que diariamente: "não me diga o problema, me diga a solução". Se você decidir adotá-la (RF!), verá quantas vezes conseguirá usa-la por dia, e em quantas dessas vezes soluções perfeitas são possíveis sem que sequer precisemos "chorar muitas pitangas", dissecar o sofrimento da necessidade...

Mas vou dissecar só um pouquinho, porque são sete as abas abertas no meu navegador, e foram muitas histórias emocionantes que li. Fogem dos horrores da guerra sírios, afegãos, iraquianos, palestinos. Há muito tempo. Pagam fortunas a traficantes de pessoas, que os deixam escondidos em florestas por dias, sem água ou comida. Quando chegam até a Grécia, depois da travessia em um bote com capacidade para 10 pessoas, ocupado por 40 refugiados, eles ainda caminharão por 3 dias para conseguir obter o registro - porque os motoristas são proibidos de transportar refugiados sem registro.  Voluntários tentam conseguir transporte para eles, mas nem sempre conseguem. No site da BBC, um lindo depoimento da arqueóloga brasileira Stella Chiarelli, que foi voluntária na ajuda aos refugiados na ilha de Lesbos, na Grécia:
"Um dos casos que mais me emocionou foi o de uma família afegã – pai, mãe, quatro filhos adolescentes e uma bebê. Conversando com a mãe, ela me contou que eles pagaram US$ 30 mil para os traficantes levá-los até a Grécia e como esperaram três dias escondidos em um bosque, sem comer e sendo agredidos pelos traficantes. Tentei mudar de assunto e, quando comentei da alegria da garotinha, chamada Fatma, ela me disse que era o aniversário de um ano da menina. Olhei para eles e eles estavam ali, sentados no chão, debaixo daquele sol, no primeiro aniversário da garota. E então a mãe me diz: 'Se estivéssemos em casa, eu ia fazer um bolo bem bonito para comemorar, ia tirar foto...Aquilo cortou meu coração de um jeito. Então, no meu intervalo de 15 minutos, corri para comprar um croissant de chocolate e velas. Reencontrei a família e cantamos parabéns para Fatma. Ela estava mais interessada em brincar com as velas, mas a felicidade e a gratidão dos pais é algo que não têm preço. Eu sei que o que eu fiz não significa muito. Mas poder proporcionar cinco minutos de felicidade para essas pessoas que eu sei que ainda vão passar por tantas dificuldades... foi o meu jeito de dar apoio a eles e dar um pequeno alívio em toda essa dor. Quando eu perguntei para onde eles queriam ir, eles me disseram que queriam apenas ir para longe da guerra".
Um fator relevante para explicar o choque coletivo com a tragédia da família Kurdi é que o mundo se acostumou a simplesmente associar os habitantes do Oriente Médio com os terroristas. Abstrair o seu sofrimento, como se estivessem pagando por uma escolha de ódio. De algum modo, a coletividade "culpa" inconscientemente os refugiados pelo extremismo de seus compatriotas... São duplamente açoitados. Mas essa sou só eu chorando as minhas pitangas, então vamos dizer a sábia frase que alegra o dia: não me conte o problema, mas a solução.

Lindas iniciativas brotaram da comoção popular com a situação dos refugiados. 11 mil cidadãos da Islândia simplesmente se colocaram à disposição para abrigar refugiados em suas casas, logo após o governo anunciar que daria abrigo a cerca de cinquenta refugiados no país. Uma professora, então, publica no Facebook uma carta aberta à Ministra de Questões Sociais, pedindo que abrigassem mais pessoas, e solicitando também a ajuda de toda a população para apoiar os refugiados.

 "São nossos futuros parceiros, nossos melhores amigos, o baterista para banda dos nossos filhos, o próximo colega, a Miss Islândia 2022, o carpinteiro que finalmente vai terminar os banheiros, o cozinheiro da cantina, o bombeiro, o apresentador de TV", escreveu.

O apelo surtiu efeito e mais de 11 mil pessoas colocaram suas casas e habilidades à disposição dos refugiados na postagem. Diante da repercussão, o premiê anunciou que iria repensar o número de refugiados a serem recebidos no país. O exemplo Islandês mostra que não precisamos nos resignar com as soluções alheias. Entregar a solução mais simples - oferecer a mão - ainda é a melhor forma de evitar o mal. Mas é possível fazer mais. Pressionar os governos, com mobilizações objetivas e fundamentadas também funciona. Criar novas regras para o registro de refugiados, que garantam a segurança do país, mas "descompliquem" a situação para as vítimas da guerra, também. Não faz mal lembrar que a grande dificuldade em refugiar-se a família Kurdi era a falta do passaporte. Mas não se trata de um simples detalhe técnico.  Os Kurdi são sírios de origem curda, que foram, durante muito tempo, considerados apátridas pelo Estado da Síria, lhes tendo sido negada a nacionalidade. Em 2011, um decreto sírio permitiu que alguns deles entrasse com o pedido de cidadania, mas grande parte ainda permaneceu às margens da legalidade. A família Kurdi saiu de Damasco em 2011, e de Kobane em 2014, sempre buscando se afastar dos focos de conflito. Foram para a Turquia, que lhes deu abrigo, mas não a cidadania. Sem documentos, eles eram considerados irregulares, e a única alternativa eram os campos de refugiados. Estavam em um limbo, visto que não podiam sair da Turquia sem passaportes, nem migrar para outros países, porque não tinham os vistos de saída da Síria. O governo canadense, para abrigar os Kurdi, precisaria de seus passaportes e vistos de trabalho turcos, documentos que não existiam. Foi por esse motivo que eles embarcaram rumo a Grécia, o que resultou na tragédia do menino Alan (ou Aylan, como é a forma Síria do seu nome).

Os Kurdi existem em seu limbo. Eles precisam ser vistos. Enquanto formos mais apegados às regras pré-estabelecidas do que aos seres humanos a que elas deverão se aplicar, enquanto não assimilarmos que devemos olhar, compreender e sentir antes de solucionar as nossas questões, ponderando qual é a melhor forma de resolvê-las, seremos injustos ainda que sem querer. Espero que não sejam meninos de três anos, sempre, tombados na praia, a nos lembrar o valor da ponderação. Porque eu tenho um menino de quase três anos, e todos os meninos de três anos são ele também.


Atualização: Preciso acrescentar esse adendo e "linkar" essa bela e esclarecedora entrevista de Gabriela Ferraz ao Justificando. Nela, a advogada registra que a convenção de 1951 da ONU obriga todos os signatários a acolherem àqueles que se enquadrem na condição de refugiados. Além do desapego a uma burocracia irracional, nossos governos precisam exercitar a coerência com os compromissos firmados...


  

Mamãe Inventa

Autora

Sou Helena, mãe de Heitor e Benício, duas criaturinhas mágicas no curso de seu quinto e segundo ano de vida, respectivamente, que fizeram de mim mais humana do que nunca, forte para matar mil feras e amável para cuidar de mil feridos. Sou mãe pelas vinte e quatro horas do meu dia. Desejo, incansavelmente, a paz mundial. Com gargalhadas.

0 comentários:

Postar um comentário