Viral Trend, polêmica e o verdadeiro Desafio da Maternidade.

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Recebi a uns dias algo em torno de seis ou sete "Desafios da Maternidade" pelo Facebook e Instagram, postagem que demorei por volta de 10 dias para fazer.

Para os que não sabem, o "Desafio da Maternidade" é a versão brasileira do "Motherhood Challenge", um "viral trend" proposto no Facebook para que mães postassem fotos "que a façam felizes por serem mães", e marquem outras mulheres que acreditem serem grandes mães.

A versão gringa do desafio já havia gerado polêmica suficiente, com a postagem de berços vazios e até divertidas fotos de mulheres abraçadas com suas garrafas de vinhos favoritos...

Perdi algum tempo escrevendo um texto que respondesse a três incongruências, a meu ver, do tal desafio: primeiro, não acredito que uma imagem é capaz, por si só, de tornar alguém feliz "por ser mãe". Segundo, porque creio que a maternidade não representa algo tão absoluto e perfeito que pode ser equiparado ao "encontro com a felicidade". Por fim, nunca diria que sou uma grande mãe - aliás, nunca chamaria de "grande mãe", assim, como ares de 1984, a nenhuma mulher. A maternidade tem nuances, tem bons dias e dias ruins, e é uma tarefa que quase todas pretendem exercer com o seu melhor. Todas são mães, no mesmo nível e sem graduações que possam fazer existir, entre as reles mães, um time de grandes...

Depois de postar a minha posição sobre o tal desafio, esbarrei na postagem polêmica onde uma mãe de um bebê de apenas 40 dias de vida, dentre outras coisas,dizia: "amo meu filho, mas odeio ser mãe". Senti  aquele cheiro metálico da tempestade que se formava...

A moça, após dar a cara para bater, foi questionada sobre seus sentimentos por todas as "pessoas felizes" na indigitada rede social. Seu perfil foi fuçado, cada palavra sua usada para fundamentar ou questionar sua condição de "boa mãe". Muitos "google-doctors" concluíram pela Depressão Pós-Parto, e alguns, mais educados comedidos, apenas sugeriam uma consulta a um psicólogo. O caos.

Se a moça teve a intenção de dar rosto para a polêmica, nunca saberei... É uma questão que só cabe a ela, e a minha boa educação nunca me permitiu tratar com estranhos sem "com licenças" e "por favores", e até alguns "me desculpes". Tampouco vejo motivos para fazer perguntas de foro íntimo à desconhecidos. E antes que alguém retruque com essa, nem eu, nem a Lei, acreditamos que o espaço "social" de uma rede capaz de interligar perfis pessoais autoriza o desrespeito às regras da mínima educação. Enfim, só me resta, já que a polêmica tornou-se pública e irrestrita, dizer o tipo de sentimento que a leitura da publicação pública da moça desconhecida provocou em mim...

A maternidade hoje ganhou regras demais. Não basta, mais, ter filhos e cria-los com amor: é preciso, para que uma mãe seja recebida com louvores no mundo materno, que ela saiba "maternar". Desse modo, "parir como Deus quiser" não é mais uma opção, e todo bombardeio de informações sobre a boa maternidade induz à ideia de que as grandes mães precisam do parto natural, de preferência, sem intervenções. A gravidez abre a porta da mulher para um universo novo, um "clube" restrito com linguagem própria e palavreado estranho aos reles mortais. Não estou exagerando. As redes sociais potencializaram o que, no passado, não passava de uma simples conversa entre comadres. Agora todos os assuntos relativos à gestação são discutidos de forma aberta e nada íntima. Para que se tomasse nesse universo a liberdade de estabelecer "certos" e "errados", bastavam duas gotas do bom e velho maniqueísmo.
Imagino, sempre que vejo determinadas discussões "maternais", como seria se uma estranha perguntasse à minha avó, em plena na fila do pão, se "prefere parto de cócoras ou na banheira", se "acha que deve ou não depilar", ou se vai ser "com ou sem episiotomia"...

O grande desafio do mundo vivido em torno das redes sociais é restabelecer os limites entre o íntimo e o público: até onde eu posso opinar dentro da manifestação da vida alheia, e o que efetivamente não me diz respeito.

São dois movimentos simultâneos em redes sociais: a projeção da vida idealizada e desconstrução escancarada dos mitos... Alguns, diante da manifestação tão devassada da moça, acreditaram que sua intenção foi a de desconstruir a farsa da maternidade ideal, puxando as máscaras dos que falam em uma maternidade perfeita.


Uma mãe completamente feliz o tempo todo...


A mim, pouco importa a intenção da moça. Me pergunto, por outro lado, o que leva alguém a desfiar suas mazelas de forma pública, como se cobrasse de um ente invisível a felicidade prometida que não veio, desmascarando a mentira que supostamente lhe foi contada?

O psicanalista Contardo Calligaris, em uma entrevista para a Revista Trip, ressalta a armadilha de buscar cegamente uma "felicidade plena e constante", sem internalizar que o sofrimento e a tristeza são parte importante da vida.


 "O que me interessa sim, muito, é ter uma vida interessante. Uma vida interessante inclui viver plenamente um monte de momentos infelizes. (...) Se ser feliz é renunciar à variedade das experiências altas e baixas, que incluem sofrimentos, quando se perde um ente querido, alguém me deixa ou meu filho está doente, então não quero ser feliz".
Porque é tão complicado acreditar que viver algo difícil pode conter, ainda assim, alegria, felicidade...? Porque a falta de preparo para o difícil - a pouca percepção de que algo difícil pode ser bom, e de que pode ser bom exatamente por ser difícil...?

Era o que dizia Rainer Maria Rilke: um trechinho pode ajudar:


"Os homens, com o auxílio das convenções, resolveram tudo facilmente e pelo lado mais fácil da facilidade; mas é claro que nós devemos agarrar-nos ao difícil. Tudo o que é vivo se agarra a ele, tudo na natureza cresce e se defende segundo a sua maneira de ser; e faz-se coisa própria nascida de si mesma e procura sê-lo a qualquer preço e contra qualquer resistência. Sabemos pouca coisa, mas que temos de nos agarrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. (...) O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita. (…) O pesado e o difícil, contanto que o carreguemos corretamente, também indica o peso específico da vida e nos ensina a conhecer a unidade de medida de nossas forças, com a qual daí em diante também podemos contar quando nos sentirmos felizes e bem-aventurados”.

Como explicar a uma geração inteira que parece não compreender a importância do sofrimento para o sucesso nas relações pessoais e profissionais, que talvez circunstâncias alheias à vontade geral não permitam o parto na forma pretendida, ou que as feições do filho podem não ser exatamente aquelas imaginadas, que independente de toda a ajuda recebida e toda tentativa em minimizar-lhe o sofrimento, haverá uma carga pesada que precisará carregar sozinha, e, finalmente, que ser mãe não é algo que se obtém para si, mas uma (difícil) tarefa exercida apenas PARA O OUTRO?

O sofrimento na maternidade não contém nenhuma novidade. Todavia, não poder dizer que se é feliz o tempo todo transformou-se no novo mal do século.


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A minha resposta ao #desafiodamaternidade está na fanpage do blog, aqui.

O livro do Rilke chama-se "Cartas a um Jovem Poeta".

O debate com o Contardo Calligaris pode ser visto aqui.

Mamãe Inventa

Autora

Sou Helena, mãe de Heitor e Benício, duas criaturinhas mágicas no curso de seu quinto e segundo ano de vida, respectivamente, que fizeram de mim mais humana do que nunca, forte para matar mil feras e amável para cuidar de mil feridos. Sou mãe pelas vinte e quatro horas do meu dia. Desejo, incansavelmente, a paz mundial. Com gargalhadas.

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